Dados do Projeto de Pesquisa

LETRAS (23002018004P7)
Representações da loucura na Literatura Latino-americana
01/03/2016
PESQUISA
EM ANDAMENTO
Representações da loucura na Literatura Latino-americana Este projeto de pesquisa se origina de uma constatação a respeito da loucura semelhante a do poeta ao se desenrolar a cena da escritura: Doido O doido passeia pela cidade sua loucura mansa. É reconhecido seu direito à loucura. Sua profissão. Entra e come onde quer. Há níqueis reservados para ele em toda casa. Torna-se o doido municipal, respeitável como o juiz, o coletor, os negociantes, o vigário. O doido é segrado. Mas se endoida. de jogar pedra, vai preso no cubículo mais tétrico e lodoso da cadeia Carlos Drummond de Andrade O poema de Carlos Drummond de Andrade problematiza o relacionamento da cidade com o seu louco público. A príncipio, constata-se o aspecto andarilho/errante do sujeito desprovido da razão que 'passeia pela cidade' enquanto sua loucura aparece controlada, 'mansa'. A cidade até certo ponto parece adotá-lo, acolhendo-o com determinada compaixão e afetividade ao mesmo tempo que o alimenta. No espaço citadino, o louco chega a ganhar mesmo algum status, tornando-se 'o doido municipal', e é comparado a outras figuras ilustres, respeitáveis. No desenvolvimento do texto, esse personagem é associado ainda às instâncias do sagrado, lembrando, como observaria Michel Foucault (2013), que a sua fala pode ser considerada oracular e ele uma espécie de profeta. Todavia, quando o louco implica uma ameaça a determinados valores, quando se põe a falar coisas indecentes e 'endoida de jogar pedra' acompanhamos uma reviravolta não apenas em seu própio comportamento, mas em toda a comunidade que passa a excluí-lo do convívio social, destinando-o à prisão. Criticamente falando, essa mudança de atitude em relação à figura do louco nasceria do desejo de pôr em prática determinados procedimentos de produção, controle e distribuição das condutas do sujeito e de seus discursos. A respeito dos mescanismos utilizados para tal feita, Foucault (2006, p.10) relaciona o da exclusão responsável por provocar uma rejeição, uma separação entre razão e loucura: "Desde a alta Idade Média, o louco é aquele cujo discurso não pode circular como o dos outros: pode ocorrer que sua palavra seja considerada nula e não seja acolhida, não tendo verdade nem importãncia (...)". Partindo dessa constatação e de que as representações da loucura se dividem, como também observa o filósofo francês, em teóricas e trágicas, este projeto de pesquisa se propões a insvetigar como no domínio da expressão literária a questão da loucura aparece ficcionalizada. Afim de constituirmos o corpora da nossa análise, estabelecemos um recorte priorizando escritores representativos da Literatura Latino-americana, alguns dos quais já aparecem indicados, a saber: Machado de Assis, Lima Barreto, Carlos Drummond de Andrade, João Guimarães Rosa e Gabriel Garcia Marquez, para os quais a temática examinada nesse projeto desponta de maneira recorrente em suas obras. Do ponto de vista teórico, o trabalho será conduzido pelas reflexões de Michel Foucault, sobretudo por uma das fases de produção do seu pensamento que trata das genealogias das relações de poder. Isso porque entendemos que medidas policiais que se destinam a enclaustar o sujeito considerado 'anormal' no 'cubículo mais tétrico e lodoso da cadeia', como ocorre ao personagem de Drummond, nascem de instrumentos de saber-poder aportados num suporte institucional que visa impor uma vontade de verdade, no sentido discutido pelo filósofo francês, e que se revela em algumas das produções dos escritores selecionados para análise, como é o caso do clássico O alienista, de Machado de Assis, em que se observa o médico Simão Bacamarte subvertendo a ordem de toda uma cidade em nome de uma pretensa ciência, a qual acaba por justificar o enclausulamento dos considerados 'tipos estranhos' na Casa Verde, uma espécie de hospício. A internação é a mesma medida de exclusão adotada no conto Sorôco, sua mãe, sua filha, do escritor João Guimarães Rosa. Na fábula, o personagem principal se vê obrigado a internar dois únicos parentes, sua mãe e sua filha, lembrando, dessa forma, que, no início do século XX, como consequência da grande internação principiada na Era Clássica, o saber moderno, a modernidade urbana e a consolidação da psiquiatria instauram que a loucura deve ser banida. Os loucos tornam-se, assim, os sujeitos indesejáveis para os quais a segregação desponta como o primeiro e mais eficaz preceito correcional pelo qual o Estado deve ficar responsável. No Brasil, o poder público tratará a loucura como um alvo de sua assistência a partir do século XIX, com a criação do Hospício Pedro II, em 1841. Mais tarde, por volta de 1890, essa primeira instituição será transformada no Hospício Nacional dos alienados. Embora, no conto de Rosa, o espaço do internamento não apareça como uma localidade na qual as ações se desenvolvem, como é o caso da Casa Verde na narrativa de Machado, há uma referência a um sanatório em específico, localizado na cidade de Barbacena no estado de Minas Gerais, para onde as personagens consideradas anormais acabam sendo levadas: "Para onde ia, no levar as mulheres, era para um lugar chamado Barbacena, longe. Para o pobre os lugares são mais longes". (Rosa, 1976, p. 13). Note-se pela fala do narrador que a hospitalização da loucura aparece sobretudo como uma forma de separação na qual estão envolvidas questões de natureza socieconômicas. Nesse caso, a literatura revela uma implicação recordada por Foucault (2013) para quem a invenção do internamento aparece como uma reação à miséria. Assim, o encerramento manicomial do sujeito louco passa por uma exigência diversa da preocupação com a cura, como assinala o narrador do conto de Guimarães Rosa em dois momentos distintos: "(...) Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre". "Rosa, 1976, p. 13); "(...) Isso não tinha cura, elas não iam voltar nunca mais". (Rosa, 1976, p. 14). Conforme vamos percebendo, a segregação não surge então como uma terapêutica, mas se assemelha a uma espécie de prisão perpétua que objetiva esconder os tipos designados com anormais. Nessa medida geral de expurgo, pela qual a loucura sofre um estranho golpe de força que a reduz ao silêncio, estão implicadas relações de poder problematizadas também nas narrativas de Carlos Drummond de Andrade, Lima Barreto e Gabriel Garcia Márquez, entre outros escritores latino-americanos. Dessa maneira, discutir a representação da loucura pensando nessas implicações parece-nos oportuno, a fim de que possamos avalia-la por uma ótica descentralizada dos poderes forjados por uma arbitrariedade que se sustenta e se propaga através de um modelo que Foucault chamaria de "A ordem do discurso".

Histórico de Linhas de Pesquisa

Linha de Pesquisa Área de Concentração Data de Início
TEXTO LITERÁRIO, CRÍTICA E CULTURA ESTUDOS DO DISCURSO E DO TEXTO 01/03/2016
DISCURSO, MEMORIA E IDENTIDADE ESTUDOS DO DISCURSO E DO TEXTO 02/03/2016

Equipe

Nome Categoria Início do Vínculo Fim do Vínculo
ELANE DA SILVA PLACIDO Discente - Mestrado 26/04/2016 04/07/2018
FRANCISCA GILMARA DA SILVA ALMIRO Discente - Doutorado 23/05/2017 -
GEORGE PATRICK DO NASCIMENTO Discente - Mestrado 26/04/2016 10/05/2018
JOSE VERANILDO LOPES DA COSTA JUNIOR Discente - Doutorado 23/05/2017 -
LAURA AMELIA FERNANDES BARRETO Discente - Mestrado 01/03/2016 01/11/2017
LICILANGE GOMES ALVES Discente - Mestrado 01/03/2016 25/05/2017
MARIA DO SOCORRO SOUZA SILVA Discente - Mestrado 23/05/2017 -
RONIE RODRIGUES DA SILVA (Responsável pelo Projeto) Docente 01/03/2016 -

Financiadores

Nome Natureza do Financiamento Início Fim
FUND COORD DE APERFEICOAMENTO DE PESSOAL DE NIVEL SUP - (Programa de Demanda Social) BOLSA 01/05/2016 -