Brasil

Dados da Disciplina

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO
LITERATURA BRASILEIRA (33002010110P0)
AS SETE VIDAS DE CARAMURU
FLC
6122
4
01/01/2012 à -
Não
Objetivos: A proposta é acompanhar e analisar as variantes e transformações da personagem do Caramuru e de sua história, desde do século XVI até a segunda metade do séc. XX, escolhendo algumas estações específicas deste longo percurso para pensar: - a questão do mito - sua formação, seu papel, como articulá-lo à História complicando a oposição real/imaginário...; - a questão da transferência de formas, símbolos e textos - isto é, a discussão do "original" ou "autêntico" e da imitação, da cópia, como também a dos termos da circulação, considerando as dimensões de re-subjetivização e de recriação dessas intertextualidades; e - a questão da construção de uma literatura nacional, tanto na perspectiva da produção como ângulo crítico e historiográfico, repensando a construção centro/periferia, alienação colonial e/ou pós-colonial... Justificativa: A disciplina tentará avaliar as orientações políticas desse mito, sua inscrição na linguagem literária, e construir um balanço intermediário de seu lugar na formação nacional, em relação a outras “lendas” americanas comparáveis, e também no plano axiológico. Conteúdo: 1o recorte. 1500-1730. (1) Daremos destaque à figura histórica de Diogo Álvares tal como se delineia através dos documentos contemporâneos, incluindo o “Tratado descritivo” de Gabriel Soares de Sousa (1587); e, nos séculos (2) XVII e XVIII, às versões de Frei Vicente do Salvador (História do Brasil. 1500-1627), Simão de Vasconcelos (Chronica da Companhia de Jesu do Estado do Brasil…, 1663) e Sebastião da Rocha Pitta (História da América Portugueza desde o Anno de Mil e Quinhentos do seu Descobrimento até o de Mil e Setecentos e Vinte e Quatro, 1730)… 2o recorte. Frei Santa Rita Durão, Caramuru. Poema épico do descobrimento da Bahia, 1781. (3) Em 1781 se dá a cristalização do mito do Caramuru, através do poema épico do frei agostiniano. (4) Ficaremos atentos às variações e formas em relação a suas fontes, analisadas em relação a contextos coloniais diversos. Assim O Caramuru dialoga não somente com o período pombalino, ilustrado pelo Uraguai de Basílio da Gama, mas também de um lado com a discussão do iluminismo sobre o “selvagem” e de outro com as matrizes portuguesas e italianas da epopéia. Ele formula e decanta várias soluções de relação entre metrópole e colônia, entre branco e índio. 3o recorte. A fortuna francesa de Caramuru. (5) Trataremos do interesse recorrente manifestado por Ferdinand Denis a respeito dessa história, assim como das reapropriações contemporâneas: adaptação de Eugène de Monglave (1829), romance de Gavet e Boucher (Jakaré-Ouassou…, 1830) etc. (6) A leitura francesa, de certo modo “equivocada”, não deixa de relançar o mito e insuflar nova vida às figuras de Caramuru e Paraguaçu, de quem tratarão no séc. XX Olga Obry e Blaise Cendrars. 4o recorte. A fortuna brasileira de Caramuru nos séc. XIX e XX. (7) Analisaremos o lugar do Caramuru dentro da vertente romântica-indianista da literatura e da arte brasileira do séc. XIX, o interesse do IGHB e de (8) Varnhagen em particular, autor de um ensaio e de um romance sobre o tema, mencionando também obras menores reescrevendo no decorrer do século novas versões dessa história. Finalmente, antes de esboçar a situação contemporânea, estudaremos as discussões críticas da segunda metade do séc. XX, lendo entre outros o que escreveram a respeito (9) Antonio Candido e (10) Sérgio Buarque.
Recortes I e II Carlos Malheiro Dias (dir.), História da colonização portuguesa do Brasil, vol. III, Porto : Litografia Nacional, 1924. Fr. José de Santa Rita Durão, Caramurú. Poema épico do descobrimento da Bahia, Lisboa: Régio Officina Typografica, 1781. Disponível no portal da Universidade de Santa Catarina: http://www.literaturabrasileira.ufsc.br/public/. Ver a edição original no site « Brasiliana-Usp ». Francisco de Britto Freyre, Nova Lusitânia — História da Guerra Brasílica, Lisboa: Oficina de Joam Galram, 1675. José Basílio da Gama, O Uraguay, Lisboa: Régia Oficina Tipográfica, 1769. Ver o texto na internet e a edição original no site « Brasiliana-Usp ». D. João III, Regimento de Tomé de Sousa, 1548. Disponível na internet. Frei Antonio de Santa Maria Jaboatão, Orbe Serafico Novo Brasilico, Descoberto, Estabelecido e Cultivado a Influxos da Nova Luz de Itália, Estrela brilhante de Espanha, Luzido Sol de Pádua, Astro Maior do Céu de Francisco, o Thaumaturgo português Sto. Antonio, a quem vai consagrado, como teatro glorioso e parte primeira da Chronica dos Frades Menores da Mais Estreita e Regular Observancia da Província do Brasil. Lisboa, Oficina de Antonio Vicente da Silva, 1761. Serafim Leite S. I., Monumenta brasilæ I (1538-1553), Roma: « Monumenta Historica Societatis Iesu, vol. X. Missiones Occidentales », 1956 —, Monumenta brasilæ II (1553-1558), Rome : Monumenta Historica Societatis Iesu, 1957. Gregório de Matos, Obra poética, ed. James Amado, vol. I, Rio de Janeiro: Record, 1990. Sebastião da Rocha Pitta, História da América Portugueza desde o Anno de Mil e Quinhentos do seu Descobrimento até o de Mil e Setecentos e Vinte e Quatro, Lisboa: Francisco Arthur da Silva, 1880, 2ª edição [1ª edição: 1730]. Maria Helena Rouanet, Eternamente em berço esplêndido, São Paulo: Siciliano, 1991. Gabriel Soares de Sousa, Tratado descritivo do Brasil em 1587, São Paulo : Companhia Editora Nacional/Edusp, 1971. Também disponível na internet. Frei Vicente do Salvador, História do Brasil (1500-1627), Belo Horizonte : Itatiaia, São Paulo : Edusp, 1982. Francisco Adolfo Varnhagen, « O Caramurú perante a historia », in Revista trimensal de Historia e Geographia ou Jornal do Instituto historico e geographico brasileiro, 2o trimestre 1848, tome X. Visconde de Porto-Seguro [Francisco Adolfo Varnhagen], História geral do Brazil antes da sua separação e independencia de Portugal, Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, 2a ed., tomo 1. Ver o site « Brasiliana-Usp ». Simão de Vasconcellos, Chronica da Companhia de Jesu do Estado do Brasil e do que obraram seus filhos n’esta parte do Novo Mundo. Em que se trata da entrada da Companhia de Jesu nas Partes do Brasil, dos Fundamentos que n’ellas lançaram e continuaram seus religiosos, e algumas notícias antecedentes, curiosas e necessárias das cousas daquele Estado. Lisboa, A. J. Fernandes Lopes, 1865 [1ª edição : Lisboa, 1663]. Pe Simão de Vasconcellos, Chronica da Companhia de Jesus do Estado do Brasil, e do que obraram seus filhos nesta parte do Novo Mundo, e algumas noticias antecedentes, curiosas e necessarias das cousas daquelle Estado, Rio de Janeiro: Typographia de João Ignácio da Silva, 1864, parte primeira, 2ª edição [1ª edição : Lisboa, 1663]. Recortes III e IV Daniel Gavet & Philippe Boucher, Jakaré-Ouassou ou Les Tupinambas. Chronique brésilienne, Paris : Timothée Dehay, 1830. Disponível na Gallica. Blaise Cendrars, Brésil. Des hommes sont venus, fotografias de Jean Manzon, Paris: Gallimard, col. “Folio”, 2010 [1ère éd.: Le Brésil, Les documents d’arts, 1952]. Ferdinand Denis (ed.), Une fête brésilienne célébrée à Rouen en 1550…, Paris : J. Techener, 1850. Il s’agit de la « Déduction… » de la célèbre fête, publiée à Rouen en 1551, accompagnée de commentaires et notes de F. Denis. Disponível na Gallica. Ferdinand Denis (avec H. Taunay), Le Brésil, ou Histoire, mœurs, usages et coutumes des habitans de ce royaume, Paris : Nepveu, 1822. Ferdinand Denis, Résumé de l’Histoire du Brésil, suivi du Résumé de l’Histoire de la Guyane, Paris : Lecointe & Durey, 1825. Brésil (associé à Colombie et Guyanes de César Famin), Paris : Firmin Didot Frères, coll. « L'Univers. Histoire et Description de Tous les Peuples », 1837. Scènes de la nature sous les tropiques et de leur influence sur la poésie. Suivies de Camoens et Jozé Indio, Paris : Louis Janet, 1824. Résumé de l’histoire littéraire du Portugal [suivi du] Résumé de l’histoire littéraire du Brésil, Paris : Lecointe & Durey, 1826. Frei Santa Rita Durão, Caramurú ou La découverte de Bahia, traduit du portugais par Eugène Garay de Monglave. Paris : Eugène Renduel, 1829, 3 vols. Disponible sur Gallica. Joaquim Manuel de Macedo, Anno biographico brazileiro, v. I e III, Rio de Janeiro : Typ. e Lithographia do Imperial Instituto Artistico, 1876. Cf. o site da Biblioteca do Senado. Carlos Frederico Ph. de Martius [Carl Friedrich…], “Como se deve escrever a história do Brasil” [1843], In Revista trimensal de história e geografia ou Jornal do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, n° 24, janeiro de 1845, Rio de Janeiro, 1844. Ver também Jornal do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, tomo 2o, Rio de Janeiro: Imprensa nacional, 1916 [1840], p. 642. Cf. o site do IHGB. Olga Obry, Catherine du Brésil, filleule de Saint-Malo, préface d’Alfred Métraux, Paris : Nouvelles éditions latines, 1953. [Olga Obry, Catarina do Brasil. A índia que descobriu a Europa, prefácio de Pedro Calmon, Rio de Janeiro: Atlântica editora, 1945.] Francisco Adolpho Varnhagen, “O Caramurú perante a historia”, in Revista trimensal de Historia e Geographia ou Jornal do Instituto historico e geographico brasileiro, 2o trimestre de 1848, tomo X, p. 129-152. Site do IHGB. Francisco Adolfo de Varnhagen, “Ensaio Histórico sobre as Letras no Brasil” [1847]. Edição de base:?Biblioteca Nacional – setor de obras digitalizadas. Francisco Adolfo Varnhagen, História geral do Brazil antes da sua separação e independencia de Portugal, Rio de Janeiro: Laemmert, 1877, 2a ed., tomo 1. Ver o site « Brasiliana-Usp ». Francisco Adolfo de Varnhagen, “O matrimonio de um Bisavô ou O Caramuru” – romance histórico brasileiro [1859?], in Francisco Adolfo de Varnhagen, Florilégio da poesia brazileira, tomo III, Rio de Janeiro : Publicações da Academia brasileira, 1946, p. 225-238. Obras gerais Janaína Amado, “Diogo Álvares, o Caramuru, e a fundação mítica do Brasil”, URL : . Oswald de Andrade, “Manifesto antropófago”, [1928], versão anotada e bilíngüe: http://www.revue-silene.com/f/index.php [Michel Riaudel, “Faut-il avoir peur de l’anthropophagie?”, in: Papiers, Collège International de Philosophie, n° 60 (http://www.ciph.org/publications.php?idPapier=60)]. Pedro Calmon, História da Fundação da Bahia, Salvador: Publicações do Museu do Estado, 1949. Antonio Candido, “O Passadista: Santa Rita Durão”, Formação da literatura brasileira (Momentos decisivos), vol. I: 1750-1836, São Paulo: Martins, s. d., 4a ed. [1a ed.: 1959], p. 175-187. Antonio Candido, “Estrutura literária e função histórica”, in Literatura e sociedade. Estudos de teoria e história literária, São Paulo: Cia Editora Nacional, 1980, 6a ed. [1a ed.: 1967], p. 169-192. Antonio Candido, Na Sala de aula, “Movimento e parada”, São Paulo: Ática, 1985, p. 7-19. Eduardo Viveiros de Castro, Métaphysiques cannibales, Paris : PUF, 2009. François-René de Chateaubriand, Atala ou les amours de deux sauvages dans le désert, 1801. Les Natchez, 1826. E a passagem pelas Américas Amérique (1791-1792) nas Mémoires d’Outre-Tombe, 1848, parte I, livros 6 a 8. Disponíveis na internet. Fenimore Cooper, O Último dos Mohicanos, 1826. Disponível na internet em versão original. Gilles Deleuze e Félix Guattari, Capitalisme et schizophrénie I, Paris: éd. de Minuit, 1972-1973, p. 163-324 (« Sauvages, barbares, civilisés »). Afonso Arinos de Melo Franco, O Índio brasileiro e a Revolução francesa. As origens brasileiras da teoria da bondade natural, Rio de Janeiro: Topbooks, s. D. [1a ed.: José Olympio, col. “Documentos brasileiros”, 1937]. Antonello Gerbi, O Novo Mundo - História de uma polêmica: 1750-1900, trad. Bernardo Joffily, São Paulo : Companhia das Letras, 1996 [La Disputa del Nuovo Mondo : storia di una polemica (1750-1900), Milano : Adelphi, 2000, ed. nuova, rivista e aumentata. 1a ed.: 1955]. François Hartog, Anciens, Modernes, Sauvages, Points-Seuil, 2008 [1ère éd. : Galaade éditions, 2005]. Particularmente a parte « Sauvages » do cap. 1. Sérgio Buarque de Holanda, Visão do paraíso : os motivos edênicos no descobrimento e colonização do Brasil, São Paulo: Ed. Nacional, col. “Brasiliana”, n° 333, 1985, 4e éd. [1ère éd.: 1959]. Sérgio Buarque de Holanda, Capítulos de literatura colonial, org. e introd. Antonio Candido, São Paulo : Brasiliense, 1991. Dominique Kalifa, “Archéologie de l’Apachisme. Les représentations des Peaux-Rouges dans la France du XIXe siècle”, Revue d’histoire de l’enfance « irrégulière », N° 4, 2002. http://rhei.revues.org/index51.html Claude Lévi-Strauss, La Pensée sauvage, Paris : Plon, 1962. Claude Lévi-Strauss, Le Cru et le Cuit. Mythologiques I, Paris : Plon, 1964 [assim como os outros volumes das Mythologiques : II – L’Origine des matières de tables, 1968 ; III – Du miel aux cendres ; IV – L’Homme nu, 1971] Le Brésil de Montaigne. Le Nouveau Monde des Essais (1580-1592), choix de textes, introduction et notes de Frank Lestringant, Paris : Chandeigne, 2005. Les Essais, e « Des cannibales », disponível na internet. Carlos de Assis Pereira, Fontes do Caramuru de Santa Rita Durão, [Assis, Brasil] : Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Assis, 1971. Georges Raeders, « Sur une traduction française de “Caramurú”, de Santa Rita Durão (1821) », Separata da Revista Paideia, Sorocaba : Fundação SCARPA, FFCL de Sorocaba, vol. III, tomo I – 1956, p. 95-110. George Readers, « “Le Caramuru” et son traducteur français », Bulletin des Études portugaises, tome 23, 1961. Ivan Teixeira (org.), Épicos – Prosopéia, O Uraguai, Caramuru, Vila Rica, A Confederação dos Tamoios, I-Juca-Pirama, São Paulo: Edusp/Imprensa Oficial do Est. de S. Paulo, col. “Multiclássicos”, 2008. Particularmente a apresentação de Berty R. R. Biron, “Luzes, razão e fé em Caramuru”, p. 317-354. David Treece, Exilados, aliados, rebeldes. O movimento indianista, a política indigenista e o Estado-Nação imperial, trad. Fábio Fonseca dde Melo, São Paulo: Nankin/Edusp, 2008. David Treece, « Caramuru, The Myth : Conquest and Conciliation », in Ibero-Amerikanisches Archiv, Berlin : Colloquium Verlag Berlin, 1982 ? Giambattista Vico, La Science nouvelle, trad. Christina Trivulzio, princesse de Belgiojoso, Paris : Gallimard, coll. « Tel », 1993 [1725]. Artur Viegas, O Poeta Santa Rita Durão. Revelações históricas da sua vida e de seu século, Paris-Bruxelas: L’édition d’Art Gaudio, 1914. Todos os títulos de Ferdinand Denis são disponíveis na Gallica.

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